Quem procurar nos dicionários, vai encontrar: hoot = pio do mocho. Mas não satisfaz: pio, em português, é fininho, por causa do i: um passarinho pia, mas dizer que um mocho pia só faz sentido se a palavra "pio" ou "piado" for usada como voz bastante genérica. Para um pintinho, o piupiu até pode ser onomatopaico, mas certamente não para uma coruja e muito menos para um mocho orelhudo.
Aqui começam aquelas diferenças que perseguem todo tradutor: hoot é forte, pesado, aspirado. Pio é leve, fraco. Quanto a hooting owl, sem problema: é o mocho orelhudo, e pronto, pois tenho como prioridade dar o nome exato da ave em português. Mas e o som? Nesse trecho em que é tão intensa, tão dramática a descrição do som, em que Thoreau apresenta a voz do mocho quase como a encarnação da loucura e da agonia, como eu poderia falar num "pio do mocho"?
Eu também ouvia a uivante serenata do mocho orelhudo. De perto você imagina que é o som mais melancólico na Natureza, como se ela quisesse criar um estereótipo e dar lugar permanente em seu coro aos gemidos agonizantes de um ser humano – o pobre e frágil resto de algum mortal que abandonou qualquer esperança e uiva como um animal, mas com soluços humanos, ao entrar no vale das trevas, ainda mais medonho por ter uma certa musicalidade gorgolejante – e me pego começando com gl sempre que tento imitá-lo – expressão de um espírito que alcançou o estágio pútrido e pastoso na mortificação de todo e qualquer pensamento saudável e corajoso. Lembrava-me os necrófagos e os idiotas e os uivos dos loucos. Mas agora um outro responde, lá de longe na mata, numa toada que se torna realmente melodiosa por causa da distância – Uu uu uu, uue uu; e na verdade, de modo geral, ela sugeria apenas associações agradáveis, fosse ouvida de dia ou de noite, no verão ou no inverno.Poderia ter usado, talvez, ulular, ululante. Mas não me bateu bem no ouvido. Pela repetição u-lu-la, sobretudo por causa do l, que é leve e líquido, a palavra me evoca uma sensação que é aflitiva, claro, mas meio de litania, meio ondulante. E os howls (note-se o jogo com owl) dos loucos a meus ouvidos são mais uivantes do que ululantes. O ui sobe e o v é cortante, talhante, sem nada envolvente como um l.
Alegra-me que existam corujas. Elas que soltem uivos idiotas e maníacos em lugar dos homens. É um som admiravelmente talhado para os pântanos e as matas sombrias que nenhum dia ilumina, sugerindo uma natureza vasta e rudimentar que os homens não reconhecem. Elas representam as sombras densas e os pensamentos insatisfeitos que todos temos. Durante o dia inteiro o sol brilhou na superfície de algum pântano selvagem, onde o único abeto vermelho se ergue com barbas-de-velho pendendo dos galhos, e acima pequenos gaviões voam em círculos, e o chapim cicia entre as coníferas, e a perdiz e o coelho se esquivam por sob elas; mas agora desponta um dia mais lúgubre e condizente, e uma outra raça de criaturas desperta para exprimir ali o sentido da Natureza. (pp. 125-126)
Some poor weak relic of humanity who ... howls like an animal; It reminded me of ghouls and idiots and insane howlings; Let the owls do the idiotic and maniacal hooting for men. São aproximações interessantes: "howls like an animal", "insane howlings", "hooting owls", desdobrando-se no "hooting of owls". Por isso hoot uivo ficou.
Dou esse exemplo porque os tradutores mantêm um indispensável diálogo com preparadores e revisores. Pois eis que mais de cem páginas à frente, sem se deter sobre as lúgubres associações que fizera, Thoreau apenas diz: even the hooting of the owl was hushed, o que transpus como "até mesmo o uivo do mocho silenciara" (p. 245).
Assim, à razoabilíssima objeção de um preparador frente a este outro hooting que também virou um uivo, tenho de explicar por que não um piar... Se essa frase estivesse sozinha, se Thoreau não tivesse se delongado antes sobre o som quase prototípico da loucura e da agonia na voz do mocho, se não tivesse aproximado howl e owl, se não houvesse tantos "ses" e tantas relações intrincadas dentro da obra, muito provavelmente eu usaria pio ou algo semelhante, mais neutro, genérico e dicionarizado. Mas não era o caso. E por isso hoot uivo continuou.
.
Delícia de comentário. Chega a dar uma coceira (deve ser vontade de encarar um desafio como esse, numa tradução).
ResponderExcluirLucas Petry Bender
obrigada, lucas! mas imagine o chilique que tive quando quiseram tirar esse outro uivo ;-)
ResponderExcluir