Este blog reúne notas variadas de leitura e tradução de Walden, de Henry D. Thoreau.
Todas as referências e citações em português remetem à edição da L&PM, 2010.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

o uivo do mocho

Começo pelo mocho orelhudo, hooting owl. Hoot significa o som do mocho ou da coruja. Quem gosta de palavras já adivinharia que hooting owl há de conter alguma ênfase, pois toda coruja ou mocho tem sua voz, e a rigor todos ou quase todos eles would hoot. E no entanto não é uma redundância. Começa que nem todo som de mocho ou coruja é hu-hu (expresso no onomatopaico hoot), mas este é um aspecto mais específico, sobre o qual não vou me estender. A questão é como trabalhar o trecho em português.

Quem procurar nos dicionários, vai encontrar: hoot = pio do mocho. Mas não satisfaz: pio, em português, é fininho, por causa do i: um passarinho pia, mas dizer que um mocho pia só faz sentido se a palavra "pio" ou "piado" for usada como voz bastante genérica. Para um pintinho, o piupiu até pode ser onomatopaico, mas certamente não para uma coruja e muito menos para um mocho orelhudo.


Aqui começam aquelas diferenças que perseguem todo tradutor: hoot é forte, pesado, aspirado. Pio é leve, fraco. Quanto a hooting owl, sem problema: é o mocho orelhudo, e pronto, pois tenho como prioridade dar o nome exato da ave em português. Mas e o som? Nesse trecho em que é tão intensa, tão dramática a descrição do som, em que Thoreau apresenta a voz do mocho quase como a encarnação da loucura e da agonia, como eu poderia falar num "pio do mocho"?
Eu também ouvia a uivante serenata do mocho orelhudo. De perto você imagina que é o som mais melancólico na Natureza, como se ela quisesse criar um estereótipo e dar lugar permanente em seu coro aos gemidos agonizantes de um ser humano – o pobre e frágil resto de algum mortal que abandonou qualquer esperança e uiva como um animal, mas com soluços humanos, ao entrar no vale das trevas, ainda mais medonho por ter uma certa musicalidade gorgolejante – e me pego começando com gl sempre que tento imitá-lo – expressão de um espírito que alcançou o estágio pútrido e pastoso na mortificação de todo e qualquer pensamento saudável e corajoso. Lembrava-me os necrófagos e os idiotas e os uivos dos loucos. Mas agora um outro responde, lá de longe na mata, numa toada que se torna realmente melodiosa por causa da distância – Uu uu uu, uue uu; e na verdade, de modo geral, ela sugeria apenas associações agradáveis, fosse ouvida de dia ou de noite, no verão ou no inverno.
Alegra-me que existam corujas. Elas que soltem uivos idiotas e maníacos em lugar dos homens. É um som admiravelmente talhado para os pântanos e as matas sombrias que nenhum dia ilumina, sugerindo uma natureza vasta e rudimentar que os homens não reconhecem. Elas representam as sombras densas e os pensamentos insatisfeitos que todos temos. Durante o dia inteiro o sol brilhou na superfície de algum pântano selvagem, onde o único abeto vermelho se ergue com barbas-de-velho pendendo dos galhos, e acima pequenos gaviões voam em círculos, e o chapim cicia entre as coníferas, e a perdiz e o coelho se esquivam por sob elas; mas agora desponta um dia mais lúgubre e condizente, e uma outra raça de criaturas desperta para exprimir ali o sentido da Natureza. (pp. 125-126)
Poderia ter usado, talvez, ulular, ululante. Mas não me bateu bem no ouvido. Pela repetição u-lu-la, sobretudo por causa do l, que é leve e líquido, a palavra me evoca uma sensação que é aflitiva, claro, mas meio de litania, meio ondulante. E os howls (note-se o jogo com owl) dos loucos a meus ouvidos são mais uivantes do que ululantes. O ui sobe e o v é cortante, talhante, sem nada envolvente como um l.


Some poor weak relic of humanity who ... howls like an animal; It reminded me of ghouls and idiots and insane howlings; Let the owls do the idiotic and maniacal hooting for men. São aproximações interessantes: "howls like an animal", "insane howlings", "hooting owls", desdobrando-se no "hooting of owls". Por isso hoot uivo ficou.


Dou esse exemplo porque os tradutores mantêm um indispensável diálogo com preparadores e revisores. Pois eis que mais de cem páginas à frente, sem se deter sobre as lúgubres associações que fizera, Thoreau apenas diz: even the hooting of the owl was hushed, o que transpus como "até mesmo o uivo do mocho silenciara" (p. 245).

Assim, à razoabilíssima objeção de um preparador frente a este outro hooting que também virou um uivo, tenho de explicar por que não um piar... Se essa frase estivesse sozinha, se Thoreau não tivesse se delongado antes sobre o som quase prototípico da loucura e da agonia na voz do mocho, se não tivesse aproximado howl e owl, se não houvesse tantos "ses" e tantas relações intrincadas dentro da obra, muito provavelmente eu usaria pio ou algo semelhante, mais neutro, genérico e dicionarizado. Mas não era o caso. E por isso hoot uivo continuou.
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2 comentários:

  1. Delícia de comentário. Chega a dar uma coceira (deve ser vontade de encarar um desafio como esse, numa tradução).
    Lucas Petry Bender

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  2. obrigada, lucas! mas imagine o chilique que tive quando quiseram tirar esse outro uivo ;-)

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