Mas para Thoreau a rasga-mortalha não grita, ulula: e como lhe cai bem o envolvente l, reiterando-se em lúgubre, cantilena, solene, consolação, celeste, lamentos, doloridos, alentos e desalentos, melancólicos, plangentes - numa alternância sonora com r que é muito bonita: grito, lúgubre, bruxas, fúnebre, dores e prazeres, infernais, doloridos, responsos, trinados, triste, sombrio, pesares, suspiros, espíritos, augúrios, trevas, transgressões...
Quando outros pássaros estão quietos, as corujas rasga-mortalha assumem a toada, como carpideiras entoando seu antigo ulular. Têm um grito lúgubre realmente benjonsoniano. Sábias bruxas da meia-noite! Não é o honesto e direto tui-tuú dos poetas,* mas, sem brincadeira, uma cantilena fúnebre extremamente solene, a mútua consolação de amantes suicidas lembrando as dores e os prazeres do amor celeste nos bosques infernais. Mesmo assim gosto de ouvir seus lamentos, os doloridos responsos, trinados de uma ponta a outra da mata; lembrando-me por vezes a melodia e as aves canoras; como se fosse o lado triste e sombrio da música, os pesares e suspiros que querem ser cantados. São os espíritos e alentos, os desalentos e augúrios melancólicos, de almas decaídas que outrora, em forma humana, andavam à noite pelo mundo e praticavam os feitos das trevas, agora expiando seus pecados com suas nênias e hinos plangentes no cenário de suas transgressões. (p. 125).*Esta frase não ficou satisfatória. Será revista, trabalhando melhor o to-whit, to-who, que vem desde Shakespeare (daí o "dos poetas").
Muito infelizmente, aqui cometi um grave erro de identificação, que será corrigido numa próxima edição de Walden. A screech owl é do gênero Megascops, com 21 espécies. Thoreau provavelmente se refere à Eastern screech owl, que é o Megascops asio, na foto acima. Já a coruja rasga-mortalha é do gênero Tyto, espécie Tyto alba, na foto abaixo. O som da screech owl é alto e penetrante, com mais de quatro vibrações por segundo, que geram o som tremulado, enquanto o da rasga-mortalha é mais leve e rasqueado, dizem: de seda rasgando.
Um detalhe interessante em que fala Thoreau filólogo classicista: like mourning women their ancient u-lu-lu. Comenta Harding que aqui ele parece retomar o latino ulalo, que veio a dar howl em inglês (e acrescento: por isso o ancient antes de u-lu-lu; note-se também que ulula significa coruja em latim). Só posso admirar a sutileza de Thoreau em distinguir as nuances entre howl e ululu, com sonoridades e ressonâncias tão diferentes, guardando aquele para a loucura e a agonia dos vivos sofredores, este para o lamento trágico das almas perdidas.


Olá,Denise.Seu blog é muito interessante! O meu blog no Wordpress foi devido à uma tarefa da disciplina Literatura Americana II, na UFRJ.
ResponderExcluirVc é a tradutora de Thoreau pro português,certo?
Abraços.
Silvia Emilia.
olá, silvia: aliás, achei muito interessante a "tarefa".
ResponderExcluirdo thoreau só traduzi o walden, que saiu agora pela lpm.
achei fascinante.
abraço
denise